A história por trás das fintechs

Conhece a trajetória histórica das fintechs? André Bastos, COO & CoFundador da FinTech Rebel, explica de uma maneira leve o tema e ainda te dá algumas dicas literárias para se aprofundar.

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Hoje vou escrever sobre FIG (Financial Institutions Group), um assunto que pouco me interessava 10 anos atrás mas é super relacionado com as FinTechs.

Logo no início do meu MBA em NYU Stern, ambicionava muito ter a experiência de Investment Banking nos EUA, isso depois de ter trabalhado cinco anos com Venture Capital no Brasil. O caminho inverso do que muitos querem, todavia eu notava que precisava da base de Banking. O meu livro de cabeceira que tenho até hoje com muitas anotações é o Investment Banking – Valuation, Leveraged Buyouts, and Merge & Acquisitions do Joshua Rosenbaum e Joshua Pearl. Também me divertia com as histórias no livro Monkey Business – Swinging through the Wall Street Jungle do John Rolfe e Peter Troob.

Reprodução: Amazon

Nas aulas, FIG era sempre tratado como assunto à parte. Avaliar instituições financeiras e bancos é diferente do que empresas tradicionais. Na época do MBA, não tinha nenhum desejo e me dediquei muito pouco a estudar sobre FIG, mas em 2014 me mudei para Chicago para trabalhar na FinTech Enova. Lá descobri a grande oportunidade que existia para mudar esse mercado para os Consumidores. Mas vou parar de falar sobre mim agora e contar um pouco da história sobre FinTechs que vem transformando o segmento das Financials Institutions Groups.

Estou lendo atualmente o livro Debt – The first 5,000 years do David Graeber.

Reprodução: Amazon

O Graeber é um antropologista e ativista polêmico. Alguns acreditam que ele que cunhou o termo “We are the 99%.” na crise de 2008 e liderou alguns dos protestos do OWS (Occupy Wall Street). O professor Scott Galloway de NYU Stern defende muito que os EUA precisam ter mais Milionários e menos Bilionários.  Acredito que o mesmo se aplique para o Brasil com as devidas proporções. Desigualdade social é uma questão muito série. Mas o meu ponto aqui é que o conceito de dívida já existe há mais de 5,000 anos e pouco se evoluiu. O Graber começa o livro com a definição de dívida pelo Dicionário Oxford de Inglês. Abaixo (após algumas notas) minha livre tradução para o português:

Dívida:

1. Uma quantia de dinheiro que você deve.

2. O estado de dever dinheiro

3. Um sentimento de gratidão por um favor ou serviço

 

Provérbio americano:

Se você deve ao banco mil dólares, o banco é o seu dono. No entretanto, se você empresta ao banco cem milhões de dólares, você é o dono do banco.

O provérbio é tão impactante para mim. Com mil dólares, o sentimento é que o banco é o seu dono, mas para ter o sentimento que você é o dono do banco precisa de um valor cem mil vezes maior. No primeiro capítulo “Na experiência da confusão moral”, ele também faz uma provocação: “Qual a diferença entre um traficante ou miliciano colocar a arma na sua cabeça e pedir 5 mil reais em proteção e o mesmo bandido ou miliciano colocar a arma na sua cabeça e lhe obrigar a pegar um empréstimo com ele de 5 mil reais? ”

Pensamos muito na Rebel em como fazer o crédito consciente e não dívida. Mas já estou desviando do assunto novamente. Posso fazer um resumo desse livro de mais de 500 páginas e letras miúdas em outra ocasião. Avançando 5 mil anos, vamos falar sobre quando FinTech começou: 

De acordo com Robert Merton as 6 principais funções do Sistema Financeiro são:

1.    Pagamentos

2.    Depósitos e Créditos (Alocação de Capital)

3.    Transferência de Recursos (Câmbio)

4.    Gerenciar Riscos (Seguros)

5.    Informação de Preço (Mercados)

6.    Assimetria de informação (Birôs de Crédito / Cadastro Positivo)

As FinTechs são a interseção das principais funções do Sistema financeiro e tecnologia.  As soluções tecnológicas tornam possível e melhoram a criação, implementação, distribuição e gerenciamentos de produtos e serviços financeiros. A tecnologia permite as FinTechs escalarem com canais de distribuição digitais focados no online e mobile.

O telégrafo em 1867 foi uma grande invenção para transmitir a informação dos preços das ações. As raízes do termo FinTech podem ser considerados em 1950 quando os computadores mainframes foram inventados e usados por bancos e seguradoras para o sistema de back office.

Na minha visão, a maior invenção do sistema financeiro foi o caixa eletrônico em 1967. Apesar do caixa eletrônico ter diminuído o uso de cheques, até hoje no Brasil é muito comum o uso do cheque especial. Mas sabemos que de especial ele não tem nada.

Outras invenções importantes são o cartão de crédito, débito, transações online de ações. Acho sempre interessante a relação com culinária. O famoso Guia Michelin com as estrelas para os restaurantes começou de uma empresa de pneus que queria incentivar mais as viagens para vender mais pneus.

O cartão de crédito The Diners Club começou em 1950 como um cartão que poderia ser usado em vários restaurantes na ilha da Manhattan em NY e depois em hotéis e grandes lojas varejistas em diferentes localidades. Logo depois em 1960 surgiram as famosas Visa e Mastercard. 

Foto: site de curiosidades

Foto: Site de curiosidades

A empresa de Transferência de Recursos Western Union foi criada em 1851 e hoje tem um valor de mercado de $10Bi. Ela começou com o telégrafo e o produto core de transferências foi lançado em 1871. Muito provavelmente é o avô das FinTechs!

A XP inspirou o seu modelo de negócio na Charles Schwab que fez o primeiro online trading em 1984 com um produto que era chamado “The Equalizer”. Eu me inspiro muito na Intuit que foi criada no mesmo ano que nasci, 1983. Ela foi criada com a visão de prover softwares para ajudarem os consumidores a gerenciarem suas finanças. A Intuit criou o termo PFM (Personal Financial Management) [só agora está em voga no Brasil] com o seu primeiro produto Quicken.

A companhia também fez aquisições de alguns produtos que sou fã como usuário. A Intuit em 2009 comprou a Mint por $170 milhões e esse ano comprou a Credit Karma por $7 bilhões no dia do meu aniversário [24 de Fevereiro]. Já está deixando de ser coincidência para virar destino… Existem rumores que a Intuit poderia comprar também a Credit Sesame, NerdWallet e FinCity (MasterCard acabou levando a companhia por $825 milhões). O mercado de M&A está quente! 

O grande foco da Intuit é na preparação de impostos com o Turbo Tax. No Brasil esse é um mercado pouco explorado devido as jabuticas brasilierias no nosso Sistema tributário que é muito complicado e com regras que mudam constantemente.

A Intuit negociada com o ticker INTU tem um valor de mercado acima de $90B, o dobro do valor de mercado da Charles Schwab de $45B. Será que a Rebel vai ser maior que a XP assim como a Intuit é maior que Charles Schwab?! Se o valor de mercado for baseado em quantos brasileiros realmente ajudamos a ter crédito com juros mais justos e mais acesso ao crédito, eu espero que sim!

Outra curiosidade sobre a Intuit é que a Microsoft tentou comprar a empresa em 1994 por $1.5B, esse teria teria sido o maior deal do ano na época ,mas o CADE americano vetou a transação por questões de antitrust . Falando em Microsoft, o Bill Gates falou em 1997:“Precisamos dos serviços financeiros mas não precisamos mais de bancos”. Também gosto muito da fala do Jack Welch:“Se a taxa de mudança de fora é maior que a taxa de mudança de dentro, o fim está perto.”

Será que os bancos estão inovando internamente mais que as FinTechs?

Se não, o fim pode estar perto. Fica também a recomendação do livro “Bye Bye Banks? – How retail banks are being displaced, diminished and desintermediated by tech startups – and what they can do to survive. Do James Haycock e Shane Richmond. O livro leva 2 horas para ler e tem uma introdução com o resumo em 5 minutos.

Como incumbente em qualquer setor, os banco tem dificuldade em manter o ritmo com a quantidade de mudanças acontecendo em suas diferentes verticais e produtos. Os bancos também tem legados de tecnologia, processos e muitas vezes de pensamento. Como eu digo no meu manifesto “Eu só sei que nada sei.” Legado de pensamento é o que mais me assusta! As maiores mudanças acontecem na:

1.    Tecnologia (mais acesso e mais capacidade de processamento)

2.    Comportamento do Consumidor (Esse o COVID acelerou)

3.    Custo menor para produção e distribuição (FinTechs conseguem escalar rápido com um CAC menor) 

O livro conclui que as principais barreiras para mudança nos bancos são pessoas, cultura e tecnologia. Ele sugere que os bancos deveriam criar Bancos Betas. Um banco completamente novo com uma liderança e localização apartada. Um começo novo para repensar do zero toda a estrutura. Os executivos dos bancos são extremamente inteligentes e capazes. Imagino se no deal entre XP e Itaú, o Itaú pensou na XP sendo o seu Beta Bank. O livro detalha um modelo operacional de 10 etapas para os executivos de bancos construírem um Beta Bank. Vou dar uma forcinha para os Bancos colocando aqui o modelo … [Não que eles precisem, pois por enquanto nós FinTechs somos apenas abelinhas.]

Em 1990, com a proliferação da internet, foi quanto os serviços financeiros onlines em vários segmentos do setor financeiros começaram a aparecer: PayPal (1998), eloan (1996), NextCard (1996), Esurance (1998), Net.B@ank (1996), Yodlee (1999), …. Na Rebel fazemos a conexão com a conta bancária do cliente de forma muito segura consolidando as suas contas e facilitando a análise.

Esse movimento começou nos EUA em 2000 com o termo “screen scraping” mas evoluiu para integrações via APIs e data feeds. Os pioneiros nesse segmento foram a ByAllAccounts que foi vendida para a Morningstar e Vertical One que foi vendida para a Yodlee. 20 anos depois do advento dessa tecnologia nos EUA, para o Brasileiro ainda é uma novidade. É necessário explicar que é seguro o cliente fornecer o login e senha de leitura no nosso site para usarmos os dados a trabalharem a favor do cliente. O brasileiro não está errado em ter receio dado o nível de fraudes no Brasil.

Como o Henry Ford falou: "Se eu tivesse perguntado ao meu consumidor o que ele queria, ele falaria um cavalo mais rápido.” O tema sobre a história de FinTech é extenso e merece até um livro só para ele, mas nesse post vou ficar por aqui.