Eles estão prontos pra crescer. Elas, preparadas pra se defender.

Não basta a ansiedade pelo primeiro pitch, na grande maioria das vezes, mulheres ainda precisam lidar com questões pessoais nesse momento tão crucial do negócio. Confira dados e dicas sobre o tema a partir da visão de Daniela Graicar, fundadora da agência PROS e do Movimento Aladas, que apoia o empreendedorismo feminino com cursos, conteúdo e mentoria.

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Daniela Graicar, fundadora da agencia PROS e do movimento Aladas

Se esse título já causa em você um certo desconforto, mesmo que inconscientemente, você já não é a maioria. De acordo com um estudo de pesquisadores da Universidade de Harvard e do MIT, os homens têm 60% mais chances de obter sucesso em competições de pitch do que as mulheres. E, pasmem: simplesmente por serem homens.

Empreendedores passam meses ou até anos aguardando a oportunidade de estar frente a frente com os donos do dinheiro. No mundo de startups, a hora do pitch é a hora H. Aqueles minutos ensaiados tim-tim por tim-tim, com lógicas de encantamento e belos slides com gráficos de todos os formatos. Mas, por mais promissor que o negócio seja, vieses inconscientes poluem o ambiente de decisão.

Um dos estudos que mais me chamou atenção foi liderado pela pesquisadora norte-americana Dana Kanze, resumido em um TEDx - O verdadeiro motivo pelo qual empresárias recebem menos capital - também apresentado por ela, em 2018. Embora as mulheres tenham fundado 38% das empresas nos EUA, elas só recebem 2% do financiamento do capital de risco. E foi essa disparidade que incomodou Kanze, cuja pesquisa sugere que a hora do pitch revela uma série de preconceitos ligados a gênero, na disputa por capital.

Dana descobriu, analisando mais de 140 pitches no TechCrunch Disrupt (competição de startups de NY), que os investidores (homens e mulheres) fazem perguntas diferentes para os donos e donas de startups. Para eles, 67% das perguntas são de promoção (relativas ao potencial de crescimento), e para elas, 66% são perguntas de prevenção (referentes às possíveis perdas com o negócio, segurança e responsabilidade, incluindo as famosas questões sobre como pretendem conciliar a vida pessoal e a profissional).

Quando um homem tem a chance de responder sobre seu potencial de ganho, ele dá a resposta que qualquer investidor quer ouvir. Ele fala sobre lucros futuros e estratégias de performance. Agora, quando a mulher responde apenas questões sobre o que fazer para evitar perdas, as respostas a deixam num território desconfortável, concentrada no que pretende fazer para que a startup não dê errado. Agora, me diz: como investidor, em quem você colocaria seu dinheiro? Naquele cujos olhos brilham rumo ao ataque ou naquela que se defende das eventuais falhas futuras?

A disparidade passa por todas as frentes e estágio de um negócio, da ideação até a atuação dessas empresas no mercado, em sua maioria fundadas por homens cujos pitches receberam investimentos em detrimento daqueles realizados por mulheres, mesmo quando a argumentação é idêntica, segundo dados recentes da Harvard Business Review, publicados pela Forbes Brasil em 2021.

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Conversando com diversos investidores respeitados no Brasil, constatei que os números e as condutas seguem a mesma lógica global. Segundo dados colhidos pelo “Female Founders Report 2021” (Distrito, Endeavor e B2Mamy), mais de 90% das startups no Brasil ainda são criadas apenas por homens, com um agravante: a proporção de startups fundadas por mulheres, que conseguem investimento, é menor do que 1%.

E apesar de começarmos a ver melhoras, elas ainda são tímidas. Segundo a Revista Veja, entre 2010 e 2019, o investimento em startups com ao menos uma mulher entre os fundadores aumentou oito vezes. Muito desse resultado vem de ações e iniciativas dedicadas a essa questão, desde gigantes como a Microsoft, que investiu em 18 startups brasileiras lideradas por mulheres, no ano passado, até o caso da GVAngels, grupo de investidores criado por ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas em 2017, cuja metade dos investimentos feitos, também em 2020, foi para empreendimentos com pessoas do gênero feminino nos cargos de liderança.

Se você é uma mulher vivenciando essa questão ou alguém que queira se posicionar como um aliado para essas mulheres, além desses exemplos que estão buscando fazer a diferença, temos outras iniciativas que precisam ser mais difundidas, como:

- We Impact: criada em 2019, com um volume de investimento, em 2020, de R$ 1 milhão em 76 startups de mulheres;

- Wishe Women Capital: criada em 2020, que também investiu, em 2020, R$ 1 milhão em 2 startups lideradas por mulheres;

- Projeto Ladies: criado nesse ano pelo Comitê da bossanova Investimentos com o intuito de investir até R$ 5 milhões em cerca de 15 startups de mulheres.

 

Se não pode mudar as perguntas, mude as respostas.

O pulo do gato é saber que, comprovadamente, homens e mulheres avaliando startups mostram o mesmo viés implícito de gênero em seus questionamentos. Então, se você é um investidor ou investidora, eu convido a refletir sobre a conduta e calibrar a lupa para acolher a diversidade e focar única e exclusivamente no potencial do negócio e na capacidade real de entrega e comprometimento de quem está à frente da empresa avaliada.

E se você é uma mulher em busca de capital para seu negócio, você tem que estar consciente desta problemática e preparada para virar esse jogo. Durante os breves minutos do seu pitch, saia da defensiva e parta para o ataque. Isso quer dizer que, ao receber uma pergunta de prevenção, seja hábil para encontrar meios de responder de forma inspiradora, com o pensamento grande e voltado a excelentes resultados numéricos, carregados de brilho nos olhos e alegria em realizar.

No mesmo estudo de Dana Kanze, as donas de startups que assim agiram passaram a ter 14 vezes mais financiamento do que aquelas que se limitaram a responder as mesmas perguntas de prevenção com respostas de defesa.

Se você não pode mudar o contexto, pode decidir como vai agir diante dele. E é a atitude dos founders e dos investidores que vai disseminar a consciência de que com diversidade no ecossistema empreendedor, ganhamos todos.

Este artigo faz parte da parceria formada entre a Snaq e o movimento Aladas. O objetivo é dar visibilidade a mulheres e suas experiências ligadas ao universo de economia criativa, incentivando mais mulheres a fazer parte do ecossistema.

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