Nada será como antes

Análise sobre as tendências do setor de investimentos feita por Moacy Veiga, fundador e CEO da Kinvo. Entenda como engajamento e ferramentas podem mudar a disputa entre casas de investimentos (DTVM, CTVM, Assets, Consultores, AAI) e os bancos tradicionais. Confira!

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Muito se fala sobre o que acontecerá em um breve futuro no mercado de investimentos, mas realmente pouco se sabe o que deve acontecer de verdade. Nunca houve tantas variáveis: Pix, STVM, Open Banking, taxa real negativa, milhões de investidores na Bolsa crescendo exponencialmente, investidores buscando informações e conhecimentos, influenciadores digitais com uma mega audiência no tema de investimentos. Há décadas ouvimos que o dinheiro de investimentos iria mudar de mãos. Ainda hoje, quase 90% de todo o investimento de pessoas físicas está concentrado nos grandes bancos e nasce aí uma grande batalha das casas de investimentos (DTVM, CTVM, Assets, Consultores, AAI) versus os bancos tradicionais.

Além disso, 2020 não ficará marcado apenas por a maior pandemia da história, mas também pelo ano em que o Brasil teve mais consolidações entre players de investimentos do que nos últimos 20 anos. Isso reflete um novo momento. O tema Investimentos vira a bola da vez no segmento de Fintechs.  

 

Mas o que muda de verdade?

1-    Pix: a jornada do investidor melhora muito. Apesar de não está funcionando ainda em corretoras, a dificuldade de se transferir dinheiro, cadastrar TED, ligar para o gerente do banco, ir à agência para fazer um TED porque valor de transferência passou do limite. Tudo isso eram barreiras para investir em outras casas e deve desaparecer. Alocar dinheiro será feito em tempo real.

 

2-    STVM (Solicitação de Transferência de Valores Mobiliários): nada mais é que a transferência de títulos entre instituições financeiras. Mas abril desde ano a CVM (Comissão de valores mobiliários) recomendou a desobrigação de reconhecimento de firma, tornando o processo digital. Isso facilita muito esse procedimento, além disso já se fala de STVM também para fundos de investimentos e produtos da Cetipados.

 É importante dizer que já não era considerado procedimento razoável a exigência de reconhecimento de firma para a Solicitação de Transferência de Valores Mobiliários (STVM) ser considerada válida. Existem várias técnicas válidas e utilizadas pela indústria financeira para verificar a autenticidade de um pedido de transferência de posições de custódia, que podem e devem ser implementadas de modo consistente e passível de verificação”, comentou Francisco José Bastos Santos, Superintendente da SMI- CVM.

 Com isso qualquer cliente poderá transferir seus ativos de forma simples para uma instituição da sua escolha. O prazo após a solicitação é de 2 dias úteis, sob pena de infração grave perante a CVM.

 

3-    Open Banking: um novo protocolo de troca de informações entre instituições. No Brasil ainda está limitado a instituições financeiras, mas o grande ganho está na regulação do mercado e padronização das informações. Nosso mercado ainda é muito manual e a implantação do open banking deve melhorar bastante alguns processos. Embora seja um grande passo sendo dado, infelizmente o BC ainda não abriu para Fintechs, o que já ocorre em outros lugares do mundo.

 

4-    Taxa real negativa: acontece pela primeira vez no Brasil, e isso muda muita coisa. A primeira delas é que acaba com o rentista tradicional, que pedia para o gerente aplicar seu dinheiro em um CDB do banco e estava tudo resolvido, com SELIC a 2% a.a. e inflação acima de 3%. Significa que quem tiver dinheiro aplicado nessa modalidade está perdendo poder de compra e ao longo do tempo os resultados dos investimentos serão negativos. Isso já acontece em vários países, mas no Brasil realmente é novo. Outro ponto importante é que esse foi o gatilho de mudança dos investimentos dos bancos tradicionais para casas especializadas em vários lugares no mundo.

  

5-    Milhões de investidores na bolsa: até outro dia isso era imaginável, ouvimos por anos que isso iria acontecer, mas realmente com um custo e oportunidade de 12% a.a. não fazia muito sentido. Isso somado a um ciclo longo com a bolsa caindo ou andando de lado. Mas sem dúvidas o grande gatilho tem sido uma Selic a 2%, o acesso a informação sobre o tema totalmente disponível, corretagem zero em diversas corretoras, e a própria evolução do investidor.

 

A única certeza que eu tenho é de que o nosso investidor está evoluindo rápido e jamais será como antes. Ao mesmo tempo, tenho visto investidores pulando da poupança para a Bolsa e queimando várias etapas, sem qualquer critério ou controle de risco. A verdade é que o mercado vive um grande dilema esquizofrênico.

E ainda tem eles...

Outro tema polemico são os robôs advisors. No mundo, os investimentos feito via robô já ultrapassam a casa de trilhões de reais, segundo o relatório da consultoria Roland Berger. No fim de 2018 existiam cerca de € 490 bilhões investidos por meio de robô advisors, sendo € 384 bilhões aplicados no Estados Unidos, € 80 bilhões na China e € 14 bilhões na Europa. Essa é uma tendência irreversível. Com a popularização do I.A. (Inteligência artificial) está cada vez mais fácil desenvolver modelos de gestão, análises de padrões, que ajudam o investidor a cuidar do seu dinheiro.

Olhando para um futuro próximo, uma solução óbvia – mas não trivial – é a tecnologia. Minha grande aposta está na consolidação de dados e informações com o objetivo e foco total em melhorar a vida desse investidor tão maltratado. Através de transparência e serviços sob medida, entregar de verdade que ele busca, mostrando sem curativo o resultado de cada produto ou alocação, fazendo com que ele consiga melhorar os investimentos sem precisar de um colete salva-vidas de um mercado tão conflitado.

Engajamento e ferramentas podem mudar de verdade esse jogo. Estamos indo para uma era em que o cliente é dono do nariz, onde está o dinheiro pouco importa e a mudança dessa alocação está a um piscar de um Face ID. A falta de informação não será mais estratégia de retenção e, por fim, ganhará quem oferece as melhores experiências, resultados, serviços e transparência.

 A época em que o cliente era apenas um CPF e uma quantia de dinheiro acabou.

Confira também nosso report sobre Audiência Digital: Investimentos com a análise de mais de 2,2 milhões de usuários das principais redes sociais do momento para avaliar seu sentimento com relação às maiores corretoras de valores, casas de research e plataformas do mercado financeiro no país.